Diz-se que os melhores perfumes vêm nos mais pequenos frascos. O ditado assenta como uma luva na ilha Brava. A ilha, também conhecida por ilha das flores ou djabraba, é a menor de todas, em Cabo Verde, mas sem falsas modéstias uma das mais charmosas. Em boa parte pelo ambiente florido, bucólico e montanhoso que a caracterizam. Mas também pelos excelentes mergulhos em piscinas naturais, trilhos pedestres impressionantes e uma cultura riquíssima.

Chega-se à Ilha Brava pelo mar numa viagem marítima breve, mas nem sempre pacífica. Parte-se da vizinha ilha do Fogo, mas entre estes dois territórios, separados por 45 minutos, fica um canal de mar de profundidades épicas que garantem em dias mais agitados uma passagem pouco pacífica.

Mas, mesmo em dia de mar revolto, garantimos que a viagem vale a pena. E de que maneira!

A Furna dá-nos as boas vindas. Uma vila piscatória de gentes hospitaleiras, e pequenos bares onde pode degustar peixe fresco, em especial a famosa moreia frita. Talvez a forma ideal de retemperar energias, uma vez em terra firme.

Aqui encontrará também uma bonita e vistosa rua pedonal, de que vários artistas urbanos tomaram conta através do projeto Sete Sóis, Sete Luas. Mas desse já falaremos mais à frente.

A Vila da Furna recebe os visitantes da ilha.

É tempo de se embrenhar na ilha e subir à sua capital.

Junto ao porto da Furna apanhe uma “hiace” (pronuncia-se Iásse) o popular nome das famosas Toyota Hiace que por todo o pais são um rápido e barato transporte “público”. Inevitavelmente, todas levam o mesmo rumo, a vila de Nova Sintra.

Mas para lá chegar há que enfrentar mais uma provação. 99 curvas separam a chegada à Ilha Brava da sua capital. “Quando fizeram a estrada nova, a empresa disse que iriam ficar apenas 42 curvas, mas a população não quis. Tiveram de manter as 99”, explica-nos o nosso condutor.

O que também nunca ninguém quis foi fazer de Nova Sintra cidade. A capital preserva a classificação de vila, tal como Sintra, em Portugal, porque todos lhe encontram semelhanças consensuais.

Não será nos palacetes, nem tão pouco no castelo. Não espere encontrar edifícios parecidos aqui, mas há, sem dúvida algumas similaridades. As montanhas que rodeiam a vila, o ambiente florido, a sensação de que uma parte da vida daqui parou no século XIX. E, não menos importante, o nevoeiro. Uma das maiores certezas de todos os dias.

O clima é fresco e convida ao passeio, sem pressas, ao ritmo da ilha.

Aloje-se em Nova Sintra e passeie por ali mesmo. Vale a pena contemplar a praça central que homenageia a mais ilustre figura da terra. O escritor, compositor de mornas e jornalista Eugénio Tavares.

Siga na direção do mercado onde encontrará artesanato local, em especial as famosas rendas feitas pela cooperativa de mulheres rendeiras da Brava.

Aproveite também para visitar a Casa Museu Eugénio Tavares e Centro de Estudos da Morna. O espaço aberto de terça a sábado reúne um vasto espólio sobre o poeta da ilha e permite-lhe perceber a vivência, na Brava, nos séculos XIX e XX.

Busto de Eugénio Tavares.

Por entre história, sobrados e outros edifícios de arquitetura colonial, encontrará também as modernas obras de arte urbana que ali nasceram pela mão de artistas, convidados do projeto Sete Sóis Sete Luas. Uma iniciativa cultural italiana que chegou a Cabo Verde em 1998 para dinamizar as ilhas e territórios mais periféricos. Hoje está presente nas ilhas de Santiago, Santo Antão, Maio, Fogo e Brava. Na Brava, o Centrum SSSL fica situado num sobrado e funciona como espaço cultural e de exposições, alojamento local e restaurante.

Existe também a Brava 7 Luas Band que anima as noites da ilha com tocatinas ao som das mornas de Eugénio Tavares. Pode encontrá-la no restaurante SSSL, ou noutros espaços de restauração da vila.

O nevoeiro matinal que cobre a vila.

Caminhar pela Ilha Brava

Reserve um dia, ou pelo menos uma manhã para explorar a ilha a pé. Existem vários trilhos pedestres assinalados e que valem a pena pela beleza das suas paisagens. Mas, nós recomendamos o trilho que parte do miradouro de Nossa Senhora do Monte, próximo de Nova Sintra e termina em Fajã d’Água.

É cerca de 1h30 a descer, mas a recompensa não podia valer mais o sacrifício.

Fajã é uma das mais bonitas baías de Cabo Verde, desenhada entre o mar e uma imponente montanha verdejante. Desça até lá e siga na direção das piscinas naturais. Não precisamos de lhe dizer mais nada!

A magnifica vista da baia da Fajã d´Água.

Depois do inevitável mergulho, procure pelo Sr. José Andrade em Fajã. Todos saberão indicar-lhe o caminho para a casa mais famosa da localidade. José Andrade, artista plástico, foi emigrante em França e no Canadá mas regressou à sua terra para ali construir um trapiche tradicional. Produz grogue, a aguardente de Cabo Verde, com marca própria e conceituada.

Não deixe de experimentar!

De regresso à vila, aprecie a paisagem, pare nos miradouros para tirar fotografias, conte as várias espécies de flores que encontra pelo caminho e perceba porque lhe chamam ilha florida.

E como o melhor dos sítios são as pessoas, a Brava não é exceção. Num território tão pequeno e isolado certamente darão pela sua presença em poucas horas. De forasteiro, turista, visitante, passará rapidamente a ser um rosto reconhecido que todos saúdam à passagem. Aproveite esta hospitalidade natural dos bravenses para enriquecer a sua viagem.

A vida na Brava é pacata, assente nas pescas, agricultura e naquilo que os familiares enviam da América. É para lá que partem massivamente os filhos da terra, em busca de uma vida melhor. Raramente regressam.

Na verdade, a ligação umbilical aos EUA é histórica e começou a bordo dos navios da pesca da baleia no século XVIII.

Hoje tenta-se reverter esse êxodo, mas a falta de emprego, de oportunidades e de ligações mais frequentes ao resto do arquipélago continua a ser o maior entrave.

Mesmo assim, o turismo começa timidamente a despontar com argumentos cada vez mais fortes. Mar, montanha, gastronomia, música e cultura, artesanato e o luxo de poder viver devagar.

Ou não fosse a Brava este pequeno frasco de perfume que exala um dos mais exclusivos e requintados aromas.

Os sorrisos que nos acolhem.

Como ir:

Viagem da Praia para a ilha do Fogo de avião com a TICV e de lá com a CV Interilhas para a Brava. Ou então faça a viagem todo por via marítima a partir da Praia. Consulte os horários dos barcos aqui.

Onde ficar:

A nossa preferência vai para o Djabrabas Ecolodge, com uma vista magnifica sobre Nova Sintra e onde o proprietário, o italiano Marco Giandinoto recebe com simpatia e hospitalidade. Mas pode também ficar  

Onde comer:

Escolha o restaurante do Centrum Sete Sóis Sete Luas que oferece ótimos pratos do dia a preços muito económicos e uma carta de gastronomia tradicional que é confecionada mediante encomenda.

Para refeições mais ligeiras recomendamos a lanchonete dentro do mercado municipal.

Como circular na ilha:

A ilha não tem táxis e são poucos os carros disponíveis para alugar. Portanto se não quiser sujeitar-se aos horários das carrinhas que fazem transporte público pode contratar uma só pra si. O preço com condutor por dia anda à volta dos 65 euros. Condutor: 9191934 (Carlinhos).